Como Calcular a Pegada de Carbono no Comércio Exterior: Guia Prático

Guia prático sobre cálculo de pegada de carbono no comércio exterior: GHG Protocol, escopos 1-3, ISO 14064, fatores de emissão por modal, CBAM, EPD e certificações.

Publicado em 2026-06-18 | Atualizado em 2026-06-18 | TRADEXA Blog

Como Calcular a Pegada de Carbono no Comércio Exterior: Guia Prático

A pegada de carbono se tornou uma das métricas mais importantes para o comércio exterior no cenário global de 2027. Com a entrada em vigor do CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism) na União Europeia, a crescente pressão de consumidores e investidores por práticas ESG, e a implementação de sistemas de precificação de carbono em diversos países, saber calcular a pegada de carbono dos produtos e operações logísticas deixou de ser um exercício opcional de responsabilidade ambiental para se tornar uma competência estratégica essencial para importadores e exportadores brasileiros.

O desafio é considerável. A cadeia de suprimentos internacional envolve múltiplos modais de transporte — marítimo, aéreo e rodoviário —, processos industriais complexos, centrais de armazenagem e distribuição, e uma miríade de fornecedores e parceiros logísticos. Cada um desses elos contribui com emissões de gases de efeito estufa que precisam ser medidas, reportadas e, cada vez mais, precificadas.

Este guia prático aborda todos os aspectos do cálculo da pegada de carbono no comércio exterior: os fundamentos do GHG Protocol e dos escopos 1, 2 e 3, as normas técnicas aplicáveis como ISO 14064 e ISO 14067, os fatores de emissão para cada modal de transporte, as ferramentas de cálculo disponíveis como GHG Protocol Tool, EPA, DEFRA e Conuma, o conceito de pegada de carbono embutida nos produtos (cradle-to-gate), a relação entre pegada de carbono e CBAM, as declarações ambientais de produto (EPD), as certificações de pegada de carbono como Carbon Trust e CarbonNeutral, os programas de neutralização, os casos brasileiros de sucesso, e como a plataforma de Trade Intelligence da TRADEXA oferece dados e ferramentas para o benchmarking de carbono por setor e a tomada de decisões estratégicas baseadas em métricas ambientais.

O Que É Pegada de Carbono

A pegada de carbono é a medida da quantidade total de emissões de gases de efeito estufa (GEE) causadas direta ou indiretamente por uma atividade, produto, organização ou indivíduo, expressa em toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO₂e). O conceito de equivalente de CO₂ permite que diferentes gases de efeito estufa — dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O), hidrofluorocarbonetos (HFCs), perfluorocarbonetos (PFCs) e hexafluoreto de enxofre (SF₆) — sejam comparados em uma unidade comum, baseada em seu potencial de aquecimento global (GWP) em relação ao CO₂.

Para o comércio exterior, a pegada de carbono pode ser calculada em diferentes níveis. A pegada de carbono organizacional mede as emissões totais de uma empresa importadora ou exportadora, incluindo suas operações diretas e indiretas. A pegada de carbono de produto mede as emissões associadas a um produto específico ao longo de seu ciclo de vida, desde a extração da matéria-prima até o descarte final. A pegada de carbono logística mede as emissões associadas ao transporte e à distribuição de mercadorias, incluindo os modais marítimo, aéreo e rodoviário.

Cada um desses níveis de cálculo exige metodologias, dados e ferramentas específicas, e todos são relevantes para diferentes aspectos da estratégia de comércio exterior. A pegada de carbono de produto é essencial para atender às exigências do CBAM e de compradores europeus que demandam produtos de baixo carbono. A pegada de carbono organizacional é fundamental para relatórios ESG, acesso a linhas de crédito vinculadas à sustentabilidade e participação em índices de sustentabilidade. A pegada de carbono logística é crucial para otimizar rotas, reduzir custos de frete e minimizar o impacto ambiental das operações.

Escopos 1, 2 e 3 do GHG Protocol

O GHG Protocol, desenvolvido pelo World Resources Institute (WRI) e pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), é o padrão internacional mais utilizado para o cálculo e reporte de emissões de gases de efeito estufa. O protocolo classifica as emissões em três escopos, que definem os limites organizacionais e operacionais do inventário de emissões.

Escopo 1 — Emissões Diretas

O escopo 1 abrange as emissões diretas de fontes que são controladas ou possuídas pela organização. No contexto do comércio exterior, incluem as emissões de veículos e equipamentos próprios utilizados no transporte de cargas, as emissões de processos industriais nas instalações da empresa, as emissões de geradores e caldeiras, e as emissões fugitivas de sistemas de refrigeração e ar condicionado.

Para um exportador brasileiro que opera sua própria frota de caminhões para transporte de cargas até o porto, as emissões de combustível desses veículos são contabilizadas no escopo 1. Da mesma forma, se o exportador possui empilhadeiras, guindastes ou outros equipamentos movidos a combustíveis fósseis em seu armazém, as emissões desses equipamentos também pertencem ao escopo 1.

O cálculo das emissões de escopo 1 é relativamente simples, baseado no consumo de combustíveis fósseis e nos fatores de emissão específicos para cada tipo de combustível. Para o diesel, o fator de emissão médio é de aproximadamente 2,68 kg de CO₂ por litro queimado. Para a gasolina, o fator é de aproximadamente 2,31 kg de CO₂ por litro. Para o gás natural, o fator é de aproximadamente 2,75 kg de CO₂ por metro cúbico.

Escopo 2 — Emissões Indiretas de Energia

O escopo 2 abrange as emissões indiretas associadas ao consumo de energia elétrica adquirida e consumida pela organização. No comércio exterior, incluem as emissões associadas à eletricidade utilizada em escritórios, armazéns, centros de distribuição, terminais portuários e aeroportuários, e instalações de processamento e manufatura.

O cálculo das emissões de escopo 2 depende do fator de emissão da rede elétrica do país ou região onde a energia é consumida. O fator de emissão é expresso em kg de CO₂ por kWh consumido e varia enormemente entre países, dependendo da matriz energética de cada um.

Para o exportador brasileiro, as emissões de escopo 2 tendem a ser significativamente menores que as de concorrentes em países com matriz energética baseada em carvão ou gás natural. O Brasil possui uma matriz elétrica com cerca de 85% de fontes renováveis — principalmente hidrelétricas, eólicas e solares —, o que resulta em um fator de emissão médio de aproximadamente 0,09 kg CO₂/kWh, comparado a 0,4 a 0,8 kg CO₂/kWh em países como China, Índia, Alemanha e Polônia.

Essa vantagem competitiva brasileira no escopo 2 é um diferencial importante no contexto do CBAM, pois as emissões indiretas são consideradas no cálculo do carbono embutido para a maioria dos produtos cobertos pelo mecanismo.

Escopo 3 — Emissões Indiretas na Cadeia de Valor

O escopo 3 é o mais abrangente e, simultaneamente, o mais desafiador para o cálculo. Ele abrange todas as emissões indiretas que ocorrem na cadeia de valor da organização, tanto a montante quanto a jusante, excluindo as emissões de escopo 2. No comércio exterior, as emissões de escopo 3 incluem:

As emissões de fornecedores de matérias-primas e insumos, que correspondem ao carbono embutido nos materiais adquiridos pelo exportador ou importador. Para um exportador de aço, por exemplo, as emissões associadas à extração e processamento do minério de ferro são contabilizadas no escopo 3. Para um importador de eletrônicos, as emissões associadas à fabricação dos componentes na China são parte do escopo 3.

As emissões de transporte e distribuição a montante, que incluem as emissões do transporte de cargas contratado de terceiros — a grande maioria do transporte internacional de cargas, que é realizado por armadores marítimos, companhias aéreas e transportadoras rodoviárias contratadas.

As emissões de viagens de negócios, que incluem as emissões associadas a viagens aéreas, terrestres e hospedagens de executivos em viagens internacionais de prospecção de mercados, visitas a feiras e clientes.

As emissões de resíduos gerados nas operações, que incluem as emissões associadas ao tratamento e disposição de resíduos sólidos e efluentes líquidos.

As emissões do uso de produtos vendidos, que incluem as emissões geradas pelo consumidor durante a utilização do produto.

As emissões de fim de vida dos produtos vendidos, que incluem as emissões associadas ao descarte, reciclagem ou disposição final dos produtos após o uso pelo consumidor.

Para a maioria das empresas de comércio exterior, o escopo 3 representa a maior parte — frequentemente entre 70% e 90% — das emissões totais. O transporte internacional de cargas, em particular, é responsável por uma parcela significativa dessas emissões.

Normas Aplicáveis ao Comércio Exterior

Diversas normas técnicas internacionais fornecem metodologias e diretrizes para o cálculo da pegada de carbono no comércio exterior. A ISO 14064 é a norma mais abrangente para inventários de gases de efeito estufa em nível organizacional, estabelecendo os requisitos para quantificação, monitoramento, reporte e verificação de emissões e remoções de GEE. A ISO 14064 é dividida em três partes: a Parte 1 especifica os requisitos para o inventário de emissões e remoções em nível organizacional; a Parte 2 especifica os requisitos para projetos de redução de emissões e aumento de remoções; e a Parte 3 especifica os requisitos para verificação e validação de declarações de GEE.

A ISO 14067 é a norma específica para a pegada de carbono de produtos, estabelecendo os princípios, requisitos e diretrizes para a quantificação e comunicação da pegada de carbono de um produto ao longo de seu ciclo de vida, com base na abordagem de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) estabelecida pelas normas ISO 14040 e ISO 14044.

A ISO 14083 é a norma específica para a quantificação e reporte de emissões de gases de efeito estufa decorrentes de operações de transporte de cargas e passageiros, incluindo os modais rodoviário, ferroviário, aéreo, marítimo e de navegação interior. Esta norma é particularmente relevante para o cálculo da pegada de carbono logística no comércio exterior.

O GHG Protocol Corporate Standard é o padrão mais utilizado internacionalmente para inventários organizacionais de emissões, complementado pelo GHG Protocol Scope 2 Guidance (para emissões indiretas de energia) e pelo GHG Protocol Corporate Value Chain (Scope 3) Standard (para emissões na cadeia de valor).

Para o comércio exterior brasileiro, o Programa Brasileiro GHG Protocol, coordenado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pelo World Resources Institute, oferece ferramentas e metodologias adaptadas à realidade nacional, incluindo fatores de emissão específicos para a matriz energética brasileira e os modais de transporte utilizados no país.

Cálculo da Pegada de Carbono Logística

O transporte internacional de cargas é um dos maiores contribuintes para a pegada de carbono do comércio exterior, e seu cálculo exige a consideração de múltiplos fatores, incluindo o modal de transporte, a distância percorrida, o tipo e o consumo de combustível, o fator de carga e o tipo de carga transportada.

Fatores de Emissão por Modal de Transporte

O transporte marítimo é o modal mais eficiente em termos de emissões de CO₂ por tonelada-quilômetro (tkm), mas também o que movimenta os maiores volumes de carga. O fator de emissão médio para navios porta-contêineres é de aproximadamente 10 a 15 gramas de CO₂ por tonelada-quilômetro, variando conforme o tamanho do navio, a velocidade de navegação, o tipo de combustível utilizado (HFO, MGO, LNG) e o fator de carga.

Navios de grande porte, como os navios da classe New Panamax e ULCS (Ultra Large Container Ships), são mais eficientes que navios menores devido às economias de escala. Navios que navegam em velocidade reduzida — a chamada slow steaming, prática comum na indústria de transporte marítimo para reduzir o consumo de combustível — emitem significativamente menos CO₂ por tonelada-quilômetro.

O transporte aéreo é o modal menos eficiente do ponto de vista das emissões de carbono, com fatores de emissão que podem chegar a 500 a 800 gramas de CO₂ por tonelada-quilômetro — 50 a 80 vezes maiores que os do transporte marítimo. A aviação também contribui com outros impactos climáticos além do CO₂, incluindo a formação de trilhas de condensação e a emissão de óxidos de nitrogênio (NOx) em altitudes elevadas.

Para o exportador brasileiro, o transporte aéreo é utilizado principalmente para cargas de alto valor agregado, perecíveis, farmacêuticas e urgentes, onde o prazo de entrega justifica o custo ambiental e financeiro mais elevado.

O transporte rodoviário, utilizado principalmente para o transporte terrestre de cargas até portos e aeroportos, tem um fator de emissão médio de aproximadamente 60 a 150 gramas de CO₂ por tonelada-quilômetro, dependendo do tipo de caminhão, do combustível utilizado e do fator de carga. Caminhões a diesel são os mais comuns, mas alternativas como caminhões elétricos, a gás natural e a biodiesel estão ganhando espaço.

O transporte ferroviário, quando disponível, é uma alternativa mais eficiente que o rodoviário, com fatores de emissão de aproximadamente 20 a 40 gramas de CO₂ por tonelada-quilômetro. No Brasil, o transporte ferroviário é utilizado principalmente para commodities agrícolas e minerais, com destaque para os corredores de exportação de soja, milho e minério de ferro.

Metodologia de Cálculo

Para calcular a pegada de carbono de uma operação logística, o exportador ou importador precisa seguir uma metodologia estruturada. A primeira etapa é a definição dos limites do cálculo, determinando quais atividades logísticas serão incluídas — transporte primário (da fábrica ao porto), transporte internacional (marítimo, aéreo ou rodoviário cross-border), transporte secundário (do porto ao centro de distribuição) e transporte de última milha (do centro de distribuição ao cliente final).

A segunda etapa é a coleta de dados de atividade, que inclui a distância percorrida em cada etapa, o peso da carga em toneladas, o modal de transporte utilizado em cada etapa, o tipo e a quantidade de combustível consumido, e o fator de carga (percentual da capacidade do veículo efetivamente utilizado).

A terceira etapa é a aplicação dos fatores de emissão, que convertem os dados de atividade em emissões de CO₂ equivalente. Os fatores de emissão podem ser obtidos de fontes como o DEFRA (Department for Environment, Food and Rural Affairs do Reino Unido), a EPA (Environmental Protection Agency dos EUA), o IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) e o Programa Brasileiro GHG Protocol.

A quarta etapa é o cálculo das emissões totais, que é obtido pela multiplicação dos dados de atividade pelos fatores de emissão correspondentes, seguido pela soma das emissões de todas as etapas logísticas.

Exemplo Prático: Exportação de Soja Brasileira para a Europa

Para ilustrar o cálculo da pegada de carbono logística, consideremos o exemplo de uma exportação de soja brasileira do Mato Grosso para a Alemanha. A soja é transportada por caminhão do campo em Mato Grosso até o porto de Santos, percorrendo aproximadamente 1.800 quilômetros. Considerando um caminhão com capacidade de 30 toneladas, consumo de diesel de 2,8 km/l e fator de emissão do diesel de 2,68 kg CO₂/l, as emissões do transporte rodoviário são de aproximadamente 57,6 kg CO₂ por tonelada de soja.

No porto de Santos, a soja é carregada em um navio graneleiro com destino ao porto de Roterdã, na Holanda, percorrendo aproximadamente 9.200 quilômetros marítimos. Considerando um navio de médio porte, com fator de emissão médio de 12 g CO₂/tkm, as emissões do transporte marítimo são de aproximadamente 110,4 kg CO₂ por tonelada de soja.

Em Roterdã, a soja é transportada por caminhão até um processador na Alemanha, percorrendo aproximadamente 600 quilômetros, com emissões adicionais de aproximadamente 19,2 kg CO₂ por tonelada.

As emissões totais de transporte para esta cadeia logística somam aproximadamente 187 kg CO₂ por tonelada de soja, o que corresponde a cerca de 0,0187 tCO₂ por tonelada de produto. Embora este número pareça pequeno em termos absolutos, quando multiplicado pelo volume total de soja exportado pelo Brasil para a Europa — mais de 15 milhões de toneladas anuais — o impacto total é de aproximadamente 280 mil toneladas de CO₂ apenas no transporte.

Ferramentas de Cálculo de Pegada de Carbono

Diversas ferramentas estão disponíveis para auxiliar importadores e exportadores no cálculo da pegada de carbono de suas operações. O GHG Protocol Tool é a ferramenta oficial do GHG Protocol, disponível gratuitamente em formato de planilha Excel, que permite o cálculo de emissões de escopo 1, 2 e 3 com base em fatores de emissão atualizados.

A EPA Simplified GHG Emissions Calculator é uma ferramenta desenvolvida pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA que permite o cálculo rápido de emissões para pequenas e médias empresas, incluindo emissões de transporte, energia, resíduos e refrigeração.

A DEFRA Carbon Factors é uma base de dados de fatores de emissão mantida pelo Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido, atualizada anualmente e amplamente utilizada como referência internacional para cálculos de pegada de carbono.

A Conuma é uma plataforma brasileira de gestão de carbono que oferece ferramentas específicas para o cálculo da pegada de carbono de produtos e operações logísticas, com fatores de emissão adaptados à realidade brasileira e integração com sistemas de gestão empresarial.

A plataforma TRADEXA oferece um módulo integrado de Pegada de Carbono que permite ao usuário calcular as emissões de suas operações de comércio exterior de forma automatizada, combinando dados de frete, rota, modal e tipo de carga com fatores de emissão atualizados das principais fontes internacionais e brasileiras. A ferramenta calcula automaticamente as emissões de escopo 1, 2 e 3, gera relatórios detalhados para reporte a compradores e autoridades regulatórias, e projeta cenários de redução de emissões com base em alternativas de rota, modal e eficiência energética.

Pegada de Carbono Embutida e CBAM

A pegada de carbono embutida — também chamada de carbono incorporado ou carbono upfront — é a quantidade total de emissões de gases de efeito estufa associadas à produção de um bem, desde a extração da matéria-prima até o momento em que o produto sai da fábrica (cradle-to-gate). No contexto do comércio exterior, a pegada de carbono embutida é a métrica central para o cálculo do CBAM.

O CBAM exige que os importadores europeus declarem e paguem pelo carbono embutido nos produtos importados dos setores cobertos — aço, alumínio, cimento, fertilizantes, hidrogênio e energia elétrica. O cálculo do carbono embutido para fins do CBAM inclui as emissões diretas (escopo 1) dos processos de fabricação e as emissões indiretas (escopo 2) associadas ao consumo de eletricidade no processo produtivo.

Para o exportador brasileiro, o cálculo correto da pegada de carbono embutida é essencial para determinar o custo adicional do CBAM e para identificar oportunidades de redução de emissões que possam minimizar esse impacto. Produtores brasileiros que investem em eficiência energética, energia renovável e processos produtivos de baixo carbono podem reduzir significativamente sua exposição ao CBAM e obter vantagem competitiva sobre concorrentes em países com matriz energética mais poluente.

Declaração Ambiental de Produto (EPD)

A Declaração Ambiental de Produto (EPD, do inglês Environmental Product Declaration) é um documento padronizado e verificado por terceira parte que fornece informações quantificadas sobre o desempenho ambiental de um produto ao longo de seu ciclo de vida, incluindo a pegada de carbono, o consumo de energia, o consumo de água, a geração de resíduos e outros impactos ambientais.

As EPDs são baseadas nas normas ISO 14025 (Rótulos e Declarações Ambientais Tipo III) e ISO 14040/14044 (Avaliação do Ciclo de Vida) e são verificadas por organismos independentes credenciados. Para o exportador brasileiro, a EPD é um documento cada vez mais exigido por compradores europeus, especialmente nos setores de construção civil, materiais de construção, produtos industriais e embalagens.

A elaboração de uma EPD envolve a realização de um estudo de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) completo do produto, desde a extração da matéria-prima até o descarte final (cradle-to-grave) ou até a saída da fábrica (cradle-to-gate), dependendo do escopo da declaração. O estudo de ACV deve ser realizado de acordo com as Regras de Categoria de Produto (PCR) específicas para cada tipo de produto, que estabelecem as metodologias, os limites do sistema e os indicadores ambientais a serem reportados.

A TRADEXA oferece suporte aos exportadores brasileiros na elaboração de EPDs, conectando-os a especialistas em ACV e organismos de verificação, e fornecendo dados de mercado que permitem posicionar o desempenho ambiental do produto em relação aos concorrentes.

Certificações de Pegada de Carbono

Para que a pegada de carbono calculada seja reconhecida por compradores, autoridades regulatórias e consumidores, ela precisa ser certificada por padrões e programas reconhecidos internacionalmente. As principais certificações de pegada de carbono disponíveis para exportadores brasileiros incluem:

A Carbon Trust Carbon Footprint Certification, emitida pela organização britânica Carbon Trust, que certifica organizações e produtos que mediram e reduziram sua pegada de carbono de acordo com metodologias reconhecidas internacionalmente. A certificação Carbon Trust é amplamente reconhecida por varejistas e compradores europeus.

A CarbonNeutral Certification, emitida pela Climate Impact Partners (anteriormente Natural Capital Partners), que certifica organizações e produtos como neutros em carbono, desde que a pegada de carbono tenha sido calculada, reduzida e as emissões residuais neutralizadas através da compra de créditos de carbono certificados.

A certificação PAS 2060, uma especificação publicamente disponível do British Standards Institution (BSI) que estabelece os requisitos para a demonstração da neutralidade de carbono. A PAS 2060 é uma das certificações mais rigorosas e reconhecidas internacionalmente.

O selo Carbon Free Brasil, oferecido pela Bolsa de Valores Ambientais (BVRio) e pelo Instituto Totum, que certifica produtos e serviços como neutros em carbono com base em metodologias adaptadas à realidade brasileira.

Para obter qualquer uma dessas certificações, o exportador brasileiro precisa primeiro calcular sua pegada de carbono seguindo metodologias reconhecidas, implementar um plano de redução de emissões, e adquirir créditos de carbono certificados para neutralizar as emissões residuais.

Programas de Neutralização

A neutralização das emissões de carbono — também chamada de compensação ou offset — é o processo pelo qual uma organização ou produto compensa suas emissões residuais de gases de efeito estufa através da compra de créditos de carbono certificados, que representam a redução ou remoção de uma quantidade equivalente de CO₂ da atmosfera.

Offset vs Insetting

Duas abordagens principais existem para a neutralização de carbono: o offset e o insetting. O offset envolve a compra de créditos de carbono de projetos externos, independentes da cadeia de valor da empresa. Esses créditos podem ser gerados por projetos de reflorestamento, energia renovável, eficiência energética, captura de metano ou outros projetos de mitigação climática em qualquer lugar do mundo.

O insetting, por outro lado, envolve a implementação de projetos de redução ou remoção de carbono dentro da própria cadeia de valor da empresa. Um exportador brasileiro de café, por exemplo, pode implementar projetos de reflorestamento e sistemas agroflorestais nas propriedades de seus fornecedores, gerando créditos de carbono internos que neutralizam as emissões do café exportado.

O insetting tem a vantagem de gerar benefícios colaterais para a cadeia de valor — melhoria da qualidade do produto, aumento da resiliência climática, fortalecimento das relações com fornecedores e diferenciação no mercado. O offset tem a vantagem de ser mais flexível e de permitir a escolha de projetos com os maiores impactos ambientais e sociais.

Mercado de Carbono Brasileiro

O Brasil possui um mercado de carbono voluntário ativo e crescente, com projetos certificados pelos principais padrões internacionais — Verra VCS, Gold Standard e Plan Vivo — que geram créditos de carbono de alta qualidade, especialmente nos setores de conservação florestal, reflorestamento e energia renovável.

A aprovação do PL 412/2022, que cria o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), está em fase final de regulamentação em 2027, e promete transformar o mercado de carbono brasileiro, criando um mercado regulado que permitirá que as empresas brasileiras comprem e vendam créditos de carbono dentro de limites estabelecidos.

Como a Pegada de Carbono Influencia Tarifas e Barreiras Não Tarifárias

A pegada de carbono está se tornando um fator cada vez mais relevante nas relações comerciais internacionais, influenciando tanto as tarifas de importação quanto as barreiras não tarifárias em diversos mercados.

Na União Europeia, o CBAM é o exemplo mais claro de como a pegada de carbono se traduz em custos tarifários. Produtos com alta pegada de carbono embutida pagam mais caro para acessar o mercado europeu. O CBAM funciona como uma tarifa de carbono na fronteira, nivelando o custo do carbono entre produtores europeus e estrangeiros.

No Reino Unido, o governo anunciou planos para implementar seu próprio mecanismo de ajuste de carbono na fronteira, similar ao CBAM europeu, que deve entrar em vigor até 2028. Exportadores brasileiros para o Reino Unido precisarão, em breve, calcular e declarar a pegada de carbono de seus produtos.

No Canadá, discussões estão em andamento sobre a implementação de um mecanismo de ajuste de carbono na fronteira, e o Japão anunciou a intenção de introduzir medidas similares. A tendência global é de que a pegada de carbono se torne um critério cada vez mais importante nas barreiras não tarifárias ao comércio internacional.

Além dos mecanismos formais de precificação de carbono na fronteira, muitos compradores privados — especialmente grandes varejistas e fabricantes europeus — estão estabelecendo requisitos voluntários de pegada de carbono para seus fornecedores. A exigência de declaração de pegada de carbono, relatórios de sustentabilidade e certificações de baixo carbono está se tornando comum em contratos de fornecimento de longo prazo.

Relatórios de Pegada de Carbono para Importadores

Os importadores europeus estão cada vez mais exigindo que seus fornecedores brasileiros apresentem relatórios detalhados de pegada de carbono, que incluam informações sobre as emissões de escopo 1, 2 e 3 dos produtos adquiridos, a metodologia de cálculo utilizada, os fatores de emissão aplicados e as certificações obtidas.

Para atender a essa demanda, o exportador brasileiro precisa implementar sistemas de monitoramento e reporte de emissões que sejam compatíveis com os padrões exigidos pelos compradores. Isso inclui a realização de inventários anuais de emissões, a elaboração de relatórios de sustentabilidade seguindo padrões como GRI (Global Reporting Initiative), SASB (Sustainability Accounting Standards Board) ou TCFD (Task Force on Climate-Related Financial Disclosures), e a obtenção de verificação por terceira parte das informações reportadas.

Cases Brasileiros de Sucesso

Diversas empresas brasileiras já estão colhendo os benefícios de calcular e reduzir sua pegada de carbono no comércio exterior. A Suzano, maior produtora mundial de celulose de eucalipto, implementou um programa abrangente de gestão de carbono que inclui o cálculo da pegada de carbono de seus produtos, a redução de emissões através de eficiência energética e energia renovável, e a neutralização das emissões residuais através de créditos de carbono gerados por suas florestas plantadas. A empresa já oferece celulose com pegada de carbono negativa — ou seja, suas florestas removem mais carbono da atmosfera do que a produção emite —, o que é um diferencial competitivo significativo no mercado europeu.

A Natura, empresa brasileira de cosméticos, calcula a pegada de carbono de todos os seus produtos e implementou um programa de neutralização que inclui a compra de créditos de carbono de projetos de conservação na Amazônia. A empresa também investe em embalagens recicladas e recicláveis, logística reversa e ingredientes de origem sustentável, posicionando-se como referência em sustentabilidade no mercado global de cosméticos.

A Marfrig, uma das maiores processadoras de carne bovina do Brasil, implementou sistemas de rastreabilidade e monitoramento de emissões em sua cadeia de suprimento, permitindo que ofereça carne com pegada de carbono calculada e certificada para compradores europeus. A empresa também investe em projetos de recuperação de pastagens degradadas, que sequestram carbono no solo e reduzem a pressão sobre áreas de floresta nativa.

Tendências para 2027-2030

O cenário da pegada de carbono no comércio exterior está evoluindo rapidamente, e algumas tendências importantes já se delineiam para o período de 2027 a 2030. A expansão do CBAM para novos setores é esperada, incluindo produtos químicos orgânicos, polímeros, papel e celulose, vidro e cerâmica. A Comissão Europeia já anunciou que estuda a inclusão desses setores na segunda fase de expansão do CBAM, programada para 2028-2030.

A harmonização global das metodologias de cálculo de pegada de carbono está avançando, com a International Organization for Standardization (ISO) e o World Resources Institute trabalhando em padrões unificados que permitam a comparabilidade das declarações de pegada de carbono entre diferentes países e setores.

O blockchain e a tecnologia de registro distribuído estão sendo cada vez mais utilizados para garantir a integridade e a rastreabilidade das declarações de pegada de carbono ao longo das cadeias de suprimento globais. Sistemas baseados em blockchain permitem o registro imutável das emissões em cada etapa da produção e do transporte, facilitando a verificação e a auditoria das declarações.

A inteligência artificial está sendo aplicada ao cálculo e à otimização da pegada de carbono, permitindo a automação da coleta de dados, a identificação de padrões de emissão, a simulação de cenários de redução e a recomendação de ações de melhoria.

Como a TRADEXA Ajuda no Benchmarking de Carbono

A plataforma TRADEXA oferece ferramentas de Trade Intelligence que permitem ao exportador brasileiro realizar benchmarking de carbono por setor, comparando sua pegada de carbono com a de concorrentes nacionais e internacionais, identificando oportunidades de melhoria e posicionando seus produtos no mercado global com base em métricas ambientais quantificadas.

O módulo de Benchmarking de Carbono da TRADEXA consolida dados de emissões de diferentes fontes — relatórios públicos, certificações, EPDs e dados de comércio exterior — e oferece indicadores setoriais de intensidade de carbono (emissões por tonelada de produto, por tonelada-quilômetro transportada e por dólar de receita).

A ferramenta de Simulação de Impacto do CBAM permite que o exportador brasileiro calcule o impacto financeiro do mecanismo sobre seus produtos, considerando diferentes cenários de redução de emissões, preços do carbono e níveis de certificação.

O dashboard de Trade Intelligence da TRADEXA integra todas essas informações em uma visão consolidada, permitindo que o exportador acompanhe a evolução de sua pegada de carbono ao longo do tempo, compare seu desempenho com metas internas e benchmarks setoriais, e identifique as ações mais efetivas para reduzir emissões e melhorar sua competitividade no mercado internacional.

Conclusão

O cálculo da pegada de carbono no comércio exterior deixou de ser uma atividade opcional para se tornar uma competência estratégica essencial para qualquer empresa brasileira que participe do comércio internacional. Com o CBAM em pleno funcionamento, a expansão dos requisitos de carbono para novos setores e mercados, e a crescente pressão de consumidores e investidores por práticas ESG, a capacidade de medir, reportar e reduzir a pegada de carbono é hoje um fator determinante da competitividade internacional.

O Brasil possui vantagens naturais significativas nesse novo cenário — matriz energética limpa, abundância de recursos renováveis, potencial de sequestro de carbono e um setor empresarial cada vez mais consciente da importância da sustentabilidade. Exportadores brasileiros que investirem no cálculo e na redução de sua pegada de carbono estarão não apenas cumprindo exigências regulatórias, mas construindo vantagens competitivas duradouras no mercado global.

A plataforma TRADEXA está comprometida em apoiar os exportadores brasileiros nessa jornada, oferecendo as ferramentas de inteligência de mercado, os dados de benchmarking setorial e as simulações de impacto regulatório necessárias para transformar a gestão de carbono em uma vantagem competitiva. O futuro do comércio exterior é de baixo carbono, e a TRADEXA é a parceira ideal para ajudar sua empresa a fazer essa transição com informação, estratégia e resultados.


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