Educação Superior — Internacionalização

Análise completa da internacionalização do ensino superior brasileiro: atração de alunos estrangeiros, intercâmbio acadêmico, convênios e impacto econômico.

Publicado em 2026-06-30 | Atualizado em 2026-06-30 | TRADEXA Blog

Internacionalização da Educação Superior Brasileira: Atração de Alunos Estrangeiros

A internacionalização do ensino superior tornou-se uma das prioridades estratégicas das universidades brasileiras na última década. Em um mundo cada vez mais conectado, a capacidade de atrair alunos estrangeiros, estabelecer parcerias acadêmicas globais e ofertar programas de intercâmbio de alta qualidade deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade competitiva. O Brasil, com seu sistema universitário diversificado — que inclui instituições públicas de excelência, centros universitários privados e uma pujante rede federal de educação —, possui potencial significativo para se posicionar como destino atrativo para estudantes internacionais.

Este artigo oferece uma análise completa da internacionalização da educação superior brasileira, abordando programas governamentais de atração de alunos estrangeiros, convênios internacionais, processos migratórios, impacto econômico, desafios estruturais e estratégias para instituições que desejam ampliar sua presença global. As informações apresentadas são especialmente relevantes para gestores universitários, formuladores de políticas educacionais, pesquisadores da área e profissionais que atuam na promoção internacional do ensino superior brasileiro.

Contexto da Internacionalização no Ensino Superior Brasileiro

O Brasil possui um dos maiores sistemas de educação superior do mundo, com mais de 2.600 instituições de ensino superior (IES), entre universidades, centros universitários, faculdades isoladas e institutos federais. O sistema atende aproximadamente 8,5 milhões de estudantes matriculados em cursos de graduação, sendo que cerca de 70% estão na rede privada e 30% na rede pública. Apesar desse porte, a presença de alunos estrangeiros ainda é modesta: estima-se que menos de 1% dos matriculados no ensino superior brasileiro sejam internacionais, proporção muito inferior à observada em países como Canadá (16%), Austrália (20%), Reino Unido (18%) e mesmo Chile (3%).

O movimento de internacionalização ganhou impulso a partir dos anos 2000 com programas como o Ciência sem Fronteiras (CsF), que enviou mais de 100 mil estudantes brasileiros para universidades no exterior entre 2011 e 2017. Embora o foco principal do CsF fosse a mobilidade de saída, o programa também criou condições para o aumento da visibilidade internacional das universidades brasileiras e estimulou a criação de escritórios de relações internacionais nas instituições.

Mais recentemente, o cenário mudou significativamente. O Capes-PrInt (Programa Institucional de Internacionalização), lançado em 2018, e o programa de bolsas do CNPq e Capes para alunos estrangeiros, combinados com iniciativas estaduais como o Programa de Bolsas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), criaram um ecossistema mais favorável à atração de talentos internacionais. Universidades como USP, Unicamp, UFRJ, UFMG e UnB têm liderado o processo, estabelecendo metas ambiciosas de internacionalização em seus planos de desenvolvimento institucional.

A língua portuguesa é um fator que tanto limita quanto diferencia a oferta brasileira. Se, por um lado, o português é menos difundido globalmente que o inglês ou o espanhol, por outro, o Brasil é o maior país de língua portuguesa do mundo e oferece uma experiência cultural única para estudantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) — Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Timor-Leste e Portugal. Além disso, o crescente número de programas de mestrado e doutorado ofertados em inglês nas universidades brasileiras tem atraído estudantes de países não lusófonos.

Programas Governamentais de Atração de Alunos Estrangeiros

O governo brasileiro desenvolve diversas iniciativas para atrair estudantes internacionais, coordenadas principalmente pelo Ministério da Educação (MEC), pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Esses programas abrangem desde bolsas de estudo integrais até acordos de cooperação bilateral.

O Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G) é a principal porta de entrada para estudantes estrangeiros de graduação no Brasil. Criado em 1965, o PEC-G é uma parceria entre o MEC, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e instituições de ensino superior brasileiras. O programa oferece vagas gratuitas em cursos de graduação para cidadãos de países em desenvolvimento com os quais o Brasil mantém acordos educacionais e culturais. Os estudantes selecionados recebem isenção de taxas acadêmicas e, em muitos casos, bolsa de estudos concedida pelo governo brasileiro ou por agências internacionais.

O Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação (PEC-PG) estende o modelo para cursos de mestrado e doutorado. Voltado para candidatos de países em desenvolvimento, o PEC-PG oferece bolsas integrais da Capes ou do CNPq, incluindo mensalidade, auxílio instalação e seguro saúde. Os candidatos são indicados pelos postos do MRE no exterior e passam por processo seletivo nas universidades brasileiras.

A Capes também mantém o Programa de Atração de Jovens Talentos (PAJT), que visa recrutar jovens pesquisadores estrangeiros com alto potencial para atuar em programas de pós-graduação brasileiros. O programa oferece bolsas de pós-doutorado, auxílio pesquisa e recursos para participação em eventos científicos.

No âmbito bilateral, o Brasil mantém acordos educacionais com mais de 50 países, que preveem intercâmbio de estudantes, pesquisadores e professores. Destacam-se os acordos com França (Programa BRAFITEC e CAPES-COFECUB), Alemanha (PROBRAL e DAAD), Estados Unidos (CAPES-Fulbright), Reino Unido e Canadá. Esses programas de dupla titulação e cotutela de teses são particularmente atrativos para alunos internacionais, que obtêm diplomas reconhecidos em ambos os países.

Para instituições que desejam estruturar programas próprios de atração de alunos internacionais, o Diretório de Importadores da TRADEXA, embora originalmente voltado para comércio exterior, oferece uma abordagem metodológica interessante: a identificação de parceiros estratégicos por país, a análise de demanda e a estruturação de canais de prospecção podem ser adaptadas para o contexto educacional, auxiliando universidades a mapear potenciais mercados de origem de estudantes.

Convênios Internacionais e Parcerias Acadêmicas

Os convênios internacionais são a espinha dorsal da internacionalização universitária. Universidades brasileiras mantêm milhares de acordos de cooperação com instituições de ensino superior em todos os continentes, cobrindo áreas como intercâmbio de estudantes e professores, pesquisa conjunta, publicação científica colaborativa, oferta de programas de dupla titulação e desenvolvimento curricular.

A tipologia dos convênios varia em complexidade e abrangência. Os acordos-quadro estabelecem as bases gerais da cooperação, enquanto os acordos específicos detalham programas concretos, como mobilidade estudantil (semestre de intercâmbio com reconhecimento de créditos), programas de summer school, estágios internacionais e cursos de curta duração. Os programas de dupla titulação, que permitem ao estudante obter diplomas de duas instituições simultaneamente, são o nível mais elevado de integração acadêmica.

A Universidade de São Paulo (USP) mantém mais de 900 acordos internacionais ativos. A Unicamp possui mais de 500 parcerias. A UFRJ coordena redes temáticas como a Rede de Pesquisa em Mudanças Climáticas. A UFMG tem acordos com mais de 200 instituições em 40 países. Essas parcerias não apenas ampliam as oportunidades para os alunos brasileiros, mas também tornam a universidade mais visível para candidatos estrangeiros.

Um aspecto crítico para o sucesso dos convênios é o alinhamento curricular e o reconhecimento de créditos. A mobilidade estudantil depende de acordos que garantam que as disciplinas cursadas no exterior sejam equivalentes às do curso de origem. No Brasil, a legislação educacional facilita esse processo por meio da flexibilização curricular e da aceitação de créditos cursados em instituições estrangeiras credenciadas.

A internacionalização do currículo é outra dimensão importante. Cada vez mais, as universidades brasileiras incorporam perspectivas globais, conteúdos interculturais e competências internacionais em seus projetos pedagógicos. Disciplinas ministradas em inglês, estudos comparados, projetos de pesquisa colaborativa internacional e estágios em organizações multinacionais são exemplos dessa tendência.

O Classificador NCM da TRADEXA pode parecer uma ferramenta distante do contexto educacional, mas sua metodologia de classificação e categorização sistemática serve como inspiração para a padronização de convênios e a organização de dados de mobilidade acadêmica. Instituições que adotam sistemas robustos de gestão de dados internacionais conseguem monitorar melhor o desempenho de suas parcerias e identificar oportunidades de expansão.

Processos de Visto e Regularização Migratória

A obtenção de visto é um dos principais gargalos para a atração de alunos estrangeiros no Brasil. O processo migratório brasileiro passou por transformações significativas nos últimos anos, com a promulgação da Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017) e seu regulamento (Decreto nº 9.199/2017), que substituíram o antigo Estatuto do Estrangeiro de 1980. A nova legislação adota uma abordagem mais moderna, baseada em direitos humanos e na facilitação da mobilidade acadêmica.

O visto temporário para estudante (Visto VITEM IV) é a principal modalidade para alunos estrangeiros que desejam cursar graduação, pós-graduação, intercâmbio ou cursos técnicos no Brasil. O visto tem validade de até um ano, renovável enquanto durar o curso, e permite múltiplas entradas no país. A solicitação deve ser feita no consulado brasileiro do país de origem do estudante, com apresentação de documentação que inclui: carta de aceite da instituição de ensino brasileira, comprovante de meios de subsistência, seguro saúde internacional, certificado de antecedentes criminais e passaporte válido.

Um avanço importante trazido pela Lei de Migração foi a simplificação do processo para alunos de países do Mercosul e associados. Cidadãos de Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Colômbia, Peru, Equador e outros países sul-americanos podem solicitar residência temporária no Brasil com base no Acordo de Residência do Mercosul, sem necessidade de visto prévio. Esse benefício reduz significativamente a burocracia e torna o Brasil mais competitivo na atração de alunos da América Latina.

Para pesquisadores e professores estrangeiros, a modalidade de visto VITEM VII (visto temporário para pesquisa, ensino ou extensão) é a mais adequada. Esse visto permite atividades acadêmicas por até dois anos, renováveis, e pode ser convertido em autorização de residência. A exigência de comprovação de vínculo com instituição de pesquisa ou ensino brasileira é o principal requisito.

A Polícia Federal é o órgão responsável pelo registro migratório dos estrangeiros no Brasil. Após a entrada no país, o estudante internacional deve realizar o registro de imigrante dentro do prazo de 90 dias, obtendo a Carteira de Registro Nacional Migratório (CRNM), que funciona como documento de identificação no Brasil. O procedimento é realizado nas unidades da Polícia Federal, com agendamento prévio pela internet.

Um desafio frequente é a demora na emissão de vistos e registros. Consulados brasileiros em alguns países africanos e asiáticos têm filas de espera que podem se estender por meses. Da mesma forma, o agendamento na Polí Federal nas grandes cidades brasileiras pode ser escasso. Universidades que criam núcleos de apoio ao estudante internacional, com assessoria migratória personalizada, conseguem mitigar esses problemas e oferecer uma experiência de acolhimento mais positiva.

O Tarifário Global da TRADEXA, embora focado em comércio exterior, compartilha com a educação internacional a necessidade de compreender exigências regulatórias de diferentes países. A mesma lógica de mapeamento de requisitos legais pode ser aplicada por universidades na estruturação de seus programas de atração internacional: conhecer as regras de imigração, os prazos consulares, as exigências documentais e os acordos bilaterais de cada país de origem dos estudantes é essencial para um planejamento eficaz.

Impacto Econômico da Internacionalização do Ensino Superior

A internacionalização do ensino superior gera impactos econômicos significativos, tanto para as instituições quanto para o país como um todo. Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que o setor educacional representa uma parcela crescente do comércio global de serviços, com os alunos internacionais contribuindo com centenas de bilhões de dólares anualmente para as economias dos países anfitriões.

No Brasil, o impacto econômico direto dos alunos estrangeiros ainda é modesto quando comparado a países como Estados Unidos (US$ 44 bilhões/ano), Reino Unido (US$ 30 bilhões/ano) ou Austrália (US$ 25 bilhões/ano). No entanto, o potencial de crescimento é enorme. Cada aluno internacional gasta em média R$ 2.500 a R$ 5.000 por mês no Brasil, dependendo da cidade e do padrão de vida, com despesas de moradia, alimentação, transporte, saúde, lazer e cursos. Multiplicado por um contingente potencial de 100 mil alunos estrangeiros, o impacto anual seria de R$ 3 a R$ 6 bilhões.

Além do gasto direto, os alunos internacionais geram impactos indiretos relevantes. Familiares que visitam o Brasil durante o período de estudos movimentam os setores de turismo, hotelaria e restaurantes. A presença de estudantes estrangeiros estimula a oferta de serviços especializados, como moradias estudantis, cursos de português para estrangeiros, seguros saúde internacionais e assessoria migratória.

O impacto de longo prazo é ainda mais significativo. Alunos internacionais que se formam no Brasil tornam-se embaixadores informais do país em seus países de origem. Estudos mostram que ex-alunos estrangeiros tendem a manter vínculos comerciais e acadêmicos com o país onde estudaram, facilitando exportações, investimentos e parcerias. O termo soft power acadêmico descreve exatamente essa capacidade de influenciar e conectar nações por meio da educação.

Para as universidades brasileiras, a receita gerada por alunos internacionais pode ser uma fonte importante de recursos, especialmente para instituições privadas que cobram mensalidades de estudantes estrangeiros. Mesmo universidades públicas, que não cobram mensalidades, podem se beneficiar de programas de extensão, cursos de português, moradia estudantil e serviços pagos oferecidos a alunos internacionais.

O Smart Rank da TRADEXA, ao classificar países por potencial de negócios com base em múltiplos indicadores, oferece uma metodologia que pode ser adaptada por universidades para identificar os mercados de origem com maior potencial para recrutamento de alunos. Fatores como renda per capita, quantidade de bolsas de estudo disponíveis, fluxos migratórios históricos e acordos bilaterais educacionais podem ser combinados em um ranking personalizado para orientar as estratégias de captação.

Desafios e Barreiras para a Internacionalização

Apesar dos avanços, a internacionalização do ensino superior brasileiro enfrenta desafios estruturais que limitam a atração de alunos estrangeiros. O enfrentamento dessas barreiras é condição necessária para que o Brasil possa competir em pé de igualdade com destinos tradicionais como Estados Unidos, Canadá, Europa e Austrália.

A barreira do idioma é frequentemente citada como o principal obstáculo. Embora o português seja uma língua com mais de 260 milhões de falantes no mundo, sua penetração como língua acadêmica é limitada. A maioria dos estudantes internacionais busca programas em inglês, e a oferta brasileira de cursos de graduação e pós-graduação integralmente em inglês ainda é incipiente, concentrada em programas de pós-graduação em universidades de ponta como USP, Unicamp e FGV.

A burocracia para obtenção de vistos e registros migratórios é outro entrave significativo. Apesar dos avanços da Lei de Migração de 2017, os processos consulares em diversos países ainda são lentos e imprevisíveis. A exigência de documentos autenticados e traduzidos, a necessidade de entrevistas presenciais em consulados que podem estar distantes da residência do candidato e a falta de informação clara sobre prazos e procedimentos desestimulam potenciais candidatos.

A infraestrutura de acolhimento é um terceiro desafio. Muitas universidades brasileiras não dispõem de moradia estudantil em quantidade suficiente, programas de mentoria para alunos internacionais, suporte psicológico intercultural e serviços de integração. A ausência de um sistema estruturado de acolhimento pode levar ao isolamento e à evasão de alunos estrangeiros.

A segurança pública é uma preocupação legítima para estudantes internacionais e suas famílias. Embora muitas cidades universitárias brasileiras — como São Carlos, Viçosa, Lavras, Santa Maria e Ribeirão Preto — tenham índices de violência relativamente baixos, a percepção internacional sobre a segurança no Brasil é negativa, influenciada pela cobertura midiática sobre a violência nas grandes metrópoles.

O financiamento também é uma barreira. O Brasil oferece menos bolsas de estudo para alunos internacionais do que países como Alemanha, França ou Canadá. O PEC-G e o PEC-PG são programas importantes, mas têm alcance limitado. A criação de programas de bolsas mais robustos, no âmbito federal e estadual, é fundamental para aumentar a atratividade do Brasil.

Por fim, a avaliação das universidades brasileiras nos rankings internacionais ainda é modesta. Embora algumas instituições — USP (em torno da 120ª posição no QS World University Rankings) e Unicamp (entre 250-300) — apareçam bem posicionadas, a maioria das universidades brasileiras está fora do topo dos rankings, o que reduz a visibilidade internacional e a atratividade para alunos estrangeiros que priorizam prestígio acadêmico em suas escolhas.

Estratégias para Instituições de Ensino Superior

Para superar os desafios e ampliar a atração de alunos estrangeiros, as instituições de ensino superior brasileiras podem adotar um conjunto de estratégias práticas e coordenadas. A experiência de universidades bem-sucedidas no processo de internacionalização oferece um roteiro valioso.

A criação de escritórios de apoio ao estudante internacional (International Student Office) é o primeiro passo. Essas unidades centralizam o atendimento pré-chegada (orientação sobre visto, moradia, documentação), acolhimento na chegada (recepção no aeroporto, registro na Polícia Federal, abertura de conta bancária) e suporte durante a permanência (assessoria acadêmica, programas de mentoria, atividades culturais). Universidades como a UFRGS e a UFSC têm se destacado nessa área.

A oferta de cursos de português para estrangeiros (PLE) é essencial para atrair alunos de países não lusófonos. Programas semestrais de imersão linguística, combinados com disciplinas regulares ministradas em inglês, permitem que o estudante estrangeiro adquira proficiência progressivamente. O Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras), emitido pelo MEC, é o certificado oficial reconhecido internacionalmente.

A ampliação da oferta de disciplinas em inglês é uma estratégia de médio prazo indispensável. Universidades que desejam se internacionalizar precisam investir na capacitação linguística de seus docentes e na criação de programas curriculares bilíngues ou integrais em inglês. A FGV, a PUC-Rio e a USP têm liderado essa tendência, com programas de graduação inteiramente em inglês em áreas como Economia, Relações Internacionais e Engenharia.

Parcerias com agências de recrutamento internacional podem ampliar significativamente o alcance das universidades brasileiras. Agências especializadas em educação internacional têm capilariedade em mercados estratégicos como China, Índia, Nigéria, Indonésia e países africanos de língua portuguesa. A comissão paga por aluno captado é um investimento com retorno garantido.

A participação em feiras educacionais internacionais é outra estratégia consagrada. Eventos como NAFSA (Estados Unidos), EAIE (Europa), APAIE (Ásia-Pacífico) e FAUBAI (Brasil — Feira de Associações de Universidades Brasileiras para Intercâmbio Internacional) reúnem milhares de instituições e agências de recrutamento. A presença brasileira nessas feiras ainda é tímida, mas crescente.

O marketing digital internacional é uma ferramenta cada vez mais importante. Sites institucionais em inglês e espanhol, presença ativa em redes sociais como Instagram e TikTok (com conteúdo direcionado ao público internacional), produção de vídeos de depoimentos de alunos estrangeiros e campanhas de anúncios segmentados por país de origem são ações de baixo custo e alto impacto.

A metodologia de análise de mercado do Smart Rank da TRADEXA pode inspirar as universidades na priorização de países e regiões para campanhas de recrutamento. Em vez de tentar atrair alunos de todos os países simultaneamente, com recursos limitados, as instituições podem focar nos mercados com maior potencial: países da CPLP (facilidade linguística e cultural), América Latina (proximidade e acordo de residência do Mercosul), países africanos com acordos educacionais (PEC-G) e países asiáticos com programas de bolsas governamentais (como China e Indonésia).

Perspectivas Futuras e Tendências Globais

O futuro da internacionalização do ensino superior brasileiro será moldado por tendências globais que já estão em curso. A pandemia de COVID-19, que interrompeu drasticamente a mobilidade estudantil internacional entre 2020 e 2022, também acelerou transformações que vieram para ficar.

A digitalização da educação superior expandiu as possibilidades de internacionalização para além da mobilidade física. Programas de intercâmbio virtual (COIL — Collaborative Online International Learning), cursos online internacionais, programas de graduação a distância com turmas multiculturais e certificações digitais com validade internacional são tendências irreversíveis. Universidades brasileiras que investirem em infraestrutura digital e capacitação docente para o ensino online global estarão melhor posicionadas.

A regionalização da internacionalização é outra tendência relevante. Em vez de focar exclusivamente nos países do Norte Global, as universidades brasileiras têm ampliado parcerias Sul-Sul, especialmente com países da América Latina, África e Ásia. A criação da Rede de Universidades dos Países de Língua Portuguesa e os acordos no âmbito do Mercosul Educacional são exemplos desse movimento.

A internacionalização em casa (Internationalization at Home) ganha importância crescente. Essa abordagem busca oferecer competências internacionais para todos os alunos, não apenas para aqueles que participam de intercâmbio. Estratégias como currículos internacionalizados, disciplinas com perspectiva global, projetos de pesquisa colaborativa com alunos de outros países via plataformas digitais e eventos acadêmicos internacionais no campus permitem que uma parcela muito maior de estudantes tenha experiências internacionais significativas.

A diversificação das origens dos alunos internacionais é uma meta explícita de muitas universidades brasileiras. Tradicionalmente, a maioria dos alunos estrangeiros no Brasil vem de países da CPLP (Angola, Cabo Verde, Moçambique) e da América Latina (Argentina, Colômbia, Peru). A estratégia atual busca ampliar a presença de estudantes da China, Índia, Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), Haiti e Estados Unidos.

A integração entre internacionalização e inovação é uma fronteira promissora. Parques tecnológicos vinculados a universidades, programas de empreendedorismo para alunos estrangeiros, incubadoras internacionais de startups e programas de talent attraction conectados ao mercado de trabalho são iniciativas que potencializam o impacto da internacionalização.

O Decreto nº 11.481/2023, que instituiu o Programa de Aceleração da Internacionalização do Ensino Superior, e as novas diretrizes da Capes para internacionalização indicam que o governo brasileiro reconhece a importância estratégica do tema. O Plano Nacional de Educação (PNE) 2024-2034, em tramitação, inclui metas específicas para a internacionalização do ensino superior, sinalizando que o tema continuará na agenda prioritária.

O Tarifário Global e o Diretório de Importadores da TRADEXA, embora originalmente concebidos para o comércio exterior, oferecem um modelo de pensamento estratégico que as universidades podem adaptar: mapear requisitos regulatórios, identificar parceiros potenciais, analisar mercados prioritários e monitorar mudanças no ambiente externo são competências essenciais tanto para exportadores quanto para instituições de ensino que buscam se internacionalizar.

Conclusão

A internacionalização da educação superior brasileira é um processo em pleno desenvolvimento, com avanços significativos e desafios igualmente importantes a serem superados. O Brasil possui ativos valiosos nessa jornada: universidades de qualidade reconhecida, diversidade cultural e natural que encanta estudantes estrangeiros, corpo acadêmico qualificado e um sistema de pós-graduação robusto que forma pesquisadores de alto nível.

Para acelerar a atração de alunos estrangeiros, é necessário um esforço coordenado entre governo, universidades e setor privado. A simplificação dos processos de visto, a ampliação da oferta de programas em inglês, o investimento em infraestrutura de acolhimento e a criação de programas de bolsas mais generosos são ações prioritárias que podem transformar o Brasil em um destino competitivo no mercado global de educação superior.

As ferramentas e metodologias da TRADEXA, originalmente desenvolvidas para apoiar exportadores brasileiros, oferecem insights valiosos para gestores universitários. A capacidade de classificar, analisar, priorizar e monitorar mercados internacionais — tão importante no comércio exterior — é igualmente relevante no contexto educacional. A internacionalização bem-sucedida exige planejamento estratégico baseado em dados, conhecimento regulatório e visão de longo prazo.

O horizonte é promissor. O mercado global de educação superior movimenta mais de 5 milhões de estudantes internacionais anualmente, e o Brasil capta menos de 1% desse fluxo. Com as estratégias certas, investimentos adequados e a vontade política de fazer da internacionalização uma prioridade nacional, o país pode multiplicar sua participação nos próximos anos, colhendo os benefícios econômicos, acadêmicos e diplomáticos que a presença de alunos estrangeiros proporciona.