Piauí no Comércio Exterior: MATOPIBA, Energia Eólica e a Nova Fronteira Agrícola
O Piauí, tradicionalmente conhecido como um dos estados mais pobres do Nordeste brasileiro, vive uma transformação silenciosa, porém profunda, que está redesenhando seu perfil econômico e sua inserção no comércio exterior. Com uma área territorial de aproximadamente 252 mil km², o Piauí é o terceiro maior estado do Nordeste, atrás apenas da Bahia, Pernambuco e Ceará, e possui uma das fronteiras agrícolas mais promissoras do Brasil: o MATOPIBA.
Este artigo oferece uma análise abrangente e detalhada do papel do Piauí no comércio exterior brasileiro, explorando sua produção agrícola no cerrado, sua liderança mundial na produção de cera de carnaúba, o potencial da fruticultura irrigada, a revolução energética em curso com os ventos e o sol do semiárido, a riqueza mineral do gesso, os projetos de infraestrutura logística e as perspectivas para o desenvolvimento de uma economia mais diversificada e competitiva.
MATOPIBA: A Nova Fronteira Agrícola
O que é o MATOPIBA?
MATOPIBA é um acrônimo formado pelas iniciais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que compõem a mais nova fronteira agrícola do Brasil e uma das últimas grandes áreas de expansão de cultivo de grãos do mundo. Caracterizada pela vegetação de cerrado, relevo plano a suavemente ondulado, solos profundos e mecanizáveis, e um regime de chuvas bem definido, a região do MATOPIBA atraiu, nas últimas décadas, investimentos massivos de produtores rurais de todo o país, especialmente do Sul e Sudeste.
No Piauí, o MATOPIBA ocupa principalmente a região sudoeste do estado, nos municípios de Uruçuí, Bom Jesus, Corrente, Gilbués, Monte Alegre do Piauí, Palmeira do Piauí, Currais, Santa Filomena, Baixa Grande do Ribeiro, Ribeiro Gonçalves, entre outros. A área agriculturável do MATOPIBA piauiense é estimada em mais de 2 milhões de hectares, com potencial para expansão para até 5 milhões de hectares, considerando áreas de cerrado ainda não incorporadas ao processo produtivo.
Soja: O Motor do Crescimento
A soja é, de longe, o principal produto do agronegócio piauiense e o carro-chefe das exportações do estado. A produção de soja no Piauí cresceu de forma explosiva nas últimas duas décadas: de menos de 100 mil toneladas no início dos anos 2000, a produção alcançou cerca de 4,5 milhões de toneladas na safra 2024/2025, consolidando o Piauí como um dos maiores produtores de soja do Nordeste e um dos que mais crescem no Brasil.
A produtividade média da soja piauiense é competitiva com as médias nacionais, situando-se na faixa de 3.200 a 3.600 kg por hectare, graças à adoção de tecnologias de ponta, como plantio direto, sistemas de irrigação por pivô central em áreas específicas, correção de acidez do solo (calagem e gessagem) e utilização de cultivares adaptadas às condições climáticas tropicais.
O município de Uruçuí é o maior produtor de soja do Piauí, seguido por Bom Jesus e Corrente. Esses municípios estão entre os maiores produtores individuais de grãos do Nordeste e figuram nas listas nacionais de destaque no agronegócio.
A quase totalidade da soja produzida no Piauí é destinada à exportação, seja na forma de grão in natura ou processada na forma de farelo e óleo vegetal. Os principais destinos são a China (que absorve cerca de 60% a 70% do total), seguida pela Espanha, Tailândia, Vietnã, Países Baixos, Irã e Japão. A soja piauiense é embarcada principalmente pelos portos de Itaqui (São Luís, MA), Pecém (São Gonçalo do Amarante, CE) e Salvador (BA), além do Porto de Luís Correia, que possui potencial para assumir um papel mais relevante na logística de escoamento.
Milho: A Safrinha que Ganha Força
O milho é o segundo grão mais importante do MATOPIBA piauiense, cultivado predominantemente como safrinha (segunda safra), após a colheita da soja. A produção de milho no Piauí cresceu de forma expressiva nos últimos anos, acompanhando a expansão da soja, e já ultrapassa 2 milhões de toneladas anuais.
O milho piauiense é destinado tanto ao mercado interno, para alimentação animal (aves, suínos e bovinos), quanto à exportação. Os principais destinos internacionais são o Irã, a Coreia do Sul, o Japão, Taiwan e a União Europeia, que utilizam o milho principalmente para ração animal.
A produção de milho no estado tem se beneficiado do desenvolvimento de variedades híbridas mais resistentes ao estresse hídrico e de práticas de manejo integrado que aumentam a produtividade e reduzem os custos de produção.
Algodão: A Pluma que Brilha no Cerrado
O algodão é outro produto de destaque no MATOPIBA piauiense. O Piauí é um dos maiores produtores de algodão do Brasil, com uma produção anual que ultrapassa 400 mil toneladas de pluma, cultivadas em aproximadamente 100 mil hectares.
A cotonicultura piauiense é caracterizada pelo uso intensivo de tecnologia, com sistemas de irrigação por pivô central em grande parte das lavouras, monitoramento fitossanitário rigoroso e certificação socioambiental (programa Algodão Brasileiro Responsável - ABR). A qualidade da pluma piauiense é reconhecida internacionalmente, com fibras longas e resistentes, ideais para a indústria têxtil de alta qualidade.
Os principais mercados para o algodão piauiense são a China, o Paquistão, Bangladesh, a Turquia, o Vietnã e a Indonésia. A certificação ABR e as práticas de produção sustentável têm sido diferenciais competitivos importantes para acessar mercados mais exigentes, como o europeu e o norte-americano.
Cera de Carnaúba: O Ouro Vegetal do Piauí
Um Produto Único no Mundo
A carnaúba (Copernicia prunifera) é uma palmeira nativa do Nordeste brasileiro, e o Piauí é, de longe, o maior produtor mundial de cera de carnaúba, respondendo por cerca de 60% a 70% de toda a produção nacional. A cera de carnaúba é um produto natural de altíssimo valor agregado, com propriedades únicas de brilho, resistência à água, ponto de fusão elevado e biocompatibilidade.
A extração da cera é feita a partir das folhas da carnaúbeira, que são cortadas, secas ao sol e batidas para liberar a cera em pó. Este pó é então fundido, filtrado e moldado em blocos ou pastilhas para comercialização. O processo é artesanal e envolve milhares de famílias de pequenos agricultores em todo o estado, especialmente nos municípios de Parnaíba, Luís Correia, Ilha Grande, Buriti dos Lopes, Cajueiro da Praia, Araioses e outros da região Norte do Piauí.
Aplicações e Mercado Internacional
A cera de carnaúba tem uma vasta gama de aplicações industriais, que vão desde a indústria alimentícia (revestimento de frutas, confeitos e chocolates) e farmacêutica (revestimento de comprimidos e cápsulas) até a indústria automotiva (ceras para pintura de veículos), cosmética (batons, cremes e loções) e eletrônica (revestimento de componentes).
O principal mercado consumidor da cera de carnaúba piauiense são os Estados Unidos, que importam cerca de 40% a 50% de todo o volume exportado. Em seguida, vêm a Alemanha, o Japão, o Reino Unido, a França e os Países Baixos. A cera de carnaúba é um produto de alto valor por quilo, com preços que podem variar de US$ 5 a US$ 15 por quilo, dependendo da qualidade e da pureza.
A cadeia produtiva da cera de carnaúba enfrenta desafios significativos, como a sazonalidade da produção (concentrada na estação seca, de agosto a dezembro), a dependência de condições climáticas favoráveis, a necessidade de modernização do processo produtivo e a informalidade de grande parte dos extratores. No entanto, o potencial de agregação de valor é enorme, com oportunidades para a produção de ceras refinadas, microencapsuladas e derivados de alto valor para aplicações técnicas.
Fruticultura Irrigada: O Vale do São Francisco Piauiense
A fruticultura irrigada é uma das atividades mais promissoras do Piauí, com destaque para as regiões do Semiárido, especialmente no Vale do Rio São Francisco e no Vale do Rio Gurgueia. O clima semiárido, com alta luminosidade, temperaturas elevadas e baixa umidade relativa do ar, associado à disponibilidade de água para irrigação, cria condições ideais para a produção de frutas de alta qualidade.
Produção de Uva e Manga
A produção de uva no Piauí está concentrada na região de São Raimundo Nonato, no Vale do Rio São Francisco, e em áreas do município de Guadalupe. A uva piauiense é produzida em sistemas de irrigação por gotejamento, com manejo integrado de pragas e doenças, e colhida durante todo o ano, graças às condições climáticas favoráveis.
A manga é outra fruta de destaque na fruticultura irrigada piauiense. A variedade Tommy Atkins é a mais cultivada, mas há também produção de Palmer, Kent, Haden e Ataulfo. A manga piauiense é exportada principalmente para a União Europeia (Países Baixos, Reino Unido, Espanha e França) e para os Estados Unidos, onde é apreciada pela qualidade, doçura e aparência.
Acerola e Outras Frutas Tropicais
A acerola (Malpighia emarginata) é uma das frutas mais promissoras do Piauí, devido ao seu altíssimo teor de vitamina C (até 50 vezes mais que a laranja) e ao crescente mercado global por alimentos funcionais e nutracêuticos. O Piauí é um dos maiores produtores de acerola do Brasil, com produção concentrada em áreas irrigadas nos municípios de Altos, José de Freitas, Esperantina, Barras e Batalha.
A acerola piauiense é processada na forma de polpa congelada, suco concentrado, extrato seco e suplementos alimentares, destinados tanto ao mercado interno quanto à exportação para Europa, Estados Unidos e Japão.
Outras frutas tropicais cultivadas no estado incluem o caju (para produção de castanha e pedúnculo), a goiaba, o maracujá e a banana, todas com potencial de exportação, especialmente na forma processada.
Energia Eólica: Os Ventos do Desenvolvimento
O Potencial Eólico do Piauí
O Piauí possui um dos maiores potenciais eólicos do Brasil, graças aos ventos constantes e intensos que sopram em seu território, especialmente nas regiões de Chapada do São Francisco, Serra do Mel, Serra do Araripe e no litoral. A velocidade média dos ventos no estado varia de 7 a 10 m/s, com direção predominante de leste para oeste, o que garante alta eficiência na geração de energia eólica.
O estado já conta com diversos parques eólicos em operação, localizados principalmente nos municípios de Marcolândia, Caldeirão Grande do Piauí, Pio IX, Francisco Santos, Queimada Nova, Betânia do Piauí, Curral Novo do Piauí, Paulistana, São Francisco de Assis do Piauí, Campo Alegre do Fidalgo e Lagoa do Barro do Piauí.
Parque Eólico da Serra do Mel e Chapada do São Francisco
O Parque Eólico da Serra do Mel, localizado nos municípios de Caldeirão Grande do Piauí e Pio IX, é um dos maiores complexos eólicos em operação no Nordeste brasileiro, com capacidade instalada superior a 400 MW. O complexo é composto por dezenas de aerogeradores de última geração, com torres de até 100 metros de altura e pás de 50 metros, capazes de gerar energia suficiente para abastecer centenas de milhares de residências.
A Chapada do São Francisco, na região de Paulistana e Betânia do Piauí, é outra área de grande concentração de parques eólicos, com capacidade instalada que já ultrapassa 300 MW e projetos em fase de implantação que devem adicionar mais 200 MW nos próximos anos.
Impactos na Matriz Energética e no Comércio Exterior
A energia eólica tem transformado a matriz energética do Piauí e gerado impactos positivos na economia local. Os parques eólicos geram empregos diretos e indiretos, arrecadam royalties e impostos para os municípios, valorizam as terras, atraem investimentos em infraestrutura e contribuem para a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Além disso, o excedente de energia limpa gerada no Piauí é comercializado no mercado livre de energia e pode ser utilizado para certificar produtos e processos produtivos como "verdes" ou "sustentáveis", o que agrega valor às exportações do estado, especialmente para mercados europeus e norte-americanos que valorizam cadeias produtivas de baixo carbono.
Energia Solar: O Sol do Semiárido como Recurso Estratégico
O Piauí possui um dos maiores índices de irradiação solar do Brasil, com média anual superior a 5,5 kWh/m²/dia, o que torna o estado extremamente competitivo para a geração de energia solar fotovoltaica. O potencial solar piauiense é estimado em mais de 100 GW, considerando tanto sistemas de geração distribuída (telhados e pequenos terrenos) quanto usinas de grande porte (parques solares).
Diversos projetos de parques solares estão em operação ou em fase de implantação no estado, com destaque para as regiões de São João do Piauí, Paulistana, Dom Inocêncio, Canto do Buriti e São Raimundo Nonato. A energia solar complementa perfeitamente a geração eólica, já que o sol brilha com mais intensidade durante a estação seca (quando os ventos sopram com menos força), criando um mix energético equilibrado e previsível.
A combinação de energia eólica e solar posiciona o Piauí como um potencial hub de hidrogênio verde (H2V), um dos combustíveis do futuro, produzido a partir da eletrólise da água utilizando energia renovável. O governo do estado, em parceria com empresas privadas e instituições de pesquisa, já estuda a viabilidade de implantação de plantas de produção de hidrogênio verde no Porto de Luís Correia e em outras regiões do estado.
Gesso: A Maior Reserva do Brasil
O Piauí detém a maior reserva de gipsita (minério de gesso) do Brasil, localizada no município de Guadalupe, na região do Vale do Rio Parnaíba. As reservas piauienses de gipsita são estimadas em mais de 1,5 bilhão de toneladas, o que representa cerca de 90% de todas as reservas nacionais e torna o estado o maior polo gesseiro do país.
A gipsita é extraída a céu aberto, em minas de grande porte, e processada em cerca de 30 empresas de calcinação, que produzem gesso em pó para aplicação na construção civil (revestimentos, placas de drywall, blocos), na agricultura (corretivo de solos, fertilizante) e na indústria (moldes, cerâmica, cimento).
O gesso piauiense é consumido predominantemente no mercado interno, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, mas há potencial significativo para exportação, especialmente para países da América do Sul, África e Oriente Médio, onde a construção civil está em expansão e há demanda por materiais de construção de baixo custo e alta qualidade.
Os principais desafios do polo gesseiro de Guadalupe incluem o custo logístico de transporte (a região está distante dos principais centros consumidores e dos portos), a necessidade de modernização tecnológica das plantas de calcinação, a dependência de combustíveis fósseis (lenha e coque) para o processo de calcinação, e a sazonalidade da demanda. No entanto, o potencial de crescimento é enorme, especialmente com o desenvolvimento de produtos de maior valor agregado, como gesso acartonado (drywall), pré-moldados e compostos odontológicos e médico-hospitalares.
Porto de Luís Correia: A Janela para o Mundo
Histórico e Características
O Porto de Luís Correia, localizado no litoral norte do Piauí, a aproximadamente 350 km de Teresina, é o principal porto do estado e uma das infraestruturas logísticas mais estratégicas para o desenvolvimento do comércio exterior piauiense. O porto está situado na foz do Rio Parnaíba, em uma área de manguezais e restingas, e possui um canal de acesso com profundidade natural de cerca de 5 a 7 metros.
O porto foi construído na década de 1970 e passou por diversas reformas e ampliações ao longo dos anos. Atualmente, o Porto de Luís Correia possui dois berços de atracação, com capacidade para receber navios de médio porte, e um terminal de cargas que movimenta principalmente granéis sólidos (soja, milho, farelo de soja), granéis líquidos (combustíveis) e carga geral.
Terminal Pesqueiro
O Porto de Luís Correia abriga um Terminal Pesqueiro, que é uma das principais infraestruturas de apoio à pesca artesanal e industrial do Nordeste. O terminal possui câmaras frigoríficas para armazenamento de pescado, fábrica de gelo, rampa para barcos de pesca e área para processamento e beneficiamento do pescado.
A atividade pesqueira no Piauí é tradicional e envolve milhares de famílias de pescadores artesanais nos municípios litorâneos de Luís Correia, Parnaíba, Ilha Grande, Cajueiro da Praia, Buriti dos Lopes e Bom Princípio do Piauí. As principais espécies capturadas são lagosta, camarão, peixe serra, cavala, tainha, robalo, carapeba e diversos peixes de escama.
O potencial de desenvolvimento da pesca e da aquicultura no Piauí é enorme, com oportunidades para a criação de camarão marinho (carcinicultura) em viveiros no litoral, a piscicultura em tanques-rede no Rio Parnaíba e nos açudes do semiárido, e o processamento e beneficiamento do pescado para exportação, especialmente para a União Europeia e os Estados Unidos.
Desafios e Oportunidades
O Porto de Luís Correia enfrenta desafios significativos para se consolidar como um hub logístico de relevância nacional. O principal gargalo é a profundidade do canal de acesso, que limita a atracação de navios de grande porte e obriga a utilização de navios de médio porte ou a realização de transbordos em portos maiores (Itaqui, Pecém ou Salvador).
Outros desafios incluem a necessidade de investimentos em dragagem de manutenção e aprofundamento do canal, a modernização dos equipamentos de movimentação de cargas, a ampliação da área de armazenagem e a melhoria do acesso rodoviário ao porto (a PI-305 e a BR-343, que ligam Luís Correia a Teresina, estão em condições regulares e precisam de recuperação e duplicação em alguns trechos).
No entanto, as oportunidades são imensas. O Porto de Luís Correia tem potencial para se tornar o principal porto exportador do MATOPIBA, escoando a produção de grãos, algodão, frutas, gesso e carnaúba do Piauí e de áreas adjacentes do Maranhão e do Tocantins. A implantação de uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE) na área do porto, a construção de um terminal de contêineres e a implantação de uma planta de produção de hidrogênio verde são projetos que podem transformar radicalmente o perfil econômico da região.
Ferrovia Transnordestina: O Projeto que Pode Mudar o Jogo
A Ferrovia Transnordestina é um dos maiores projetos de infraestrutura logística do Brasil e um dos mais estratégicos para o desenvolvimento do Nordeste. O projeto original prevê a construção de uma ferrovia de aproximadamente 1.750 km, ligando o município de Eliseu Martins (sul do Piauí) aos portos de Pecém (Ceará) e Suape (Pernambuco), passando pelos estados do Piauí, Ceará e Pernambuco.
Para o Piauí, a Ferrovia Transnordestina é um projeto transformador. A ferrovia atravessará o estado de sul a norte, passando por municípios como Eliseu Martins, Oeiras, Paes Landim, Francisco Santos, Pio IX, Caldeirão Grande do Piauí, Jaicós, Patos do Piauí, Simões, entre outros, até chegar ao Porto de Luís Correia, no litoral.
A conclusão da Transnordestina reduzirá drasticamente o custo logístico de transporte da produção agrícola do MATOPIBA piauiense, hoje altamente dependente do modal rodoviário, que é caro, ineficiente e com grande impacto ambiental. Com a ferrovia, a soja, o milho, o algodão, o farelo e outros produtos do agronegócio piauiense poderão ser transportados de forma mais barata, rápida e segura até os portos de embarque, aumentando a competitividade das exportações do estado.
Além disso, a ferrovia viabilizará o desenvolvimento de novos polos produtivos ao longo de seu traçado, atraindo investimentos em armazenagem, processamento industrial e logística. A integração da Transnordestina com a Ferrovia Norte-Sul (que chega até Porto Nacional, no Tocantins) e com a Ferrovia Oeste-Leste (FIOL, na Bahia) criará um corredor logístico integrado que conectará o interior do Brasil aos portos do Nordeste.
Zona de Processamento de Exportação (ZPE)
O Piauí possui uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE) em fase de implantação, localizada na área do Porto de Luís Correia. As ZPEs são áreas de livre comércio com o exterior, onde as empresas instaladas gozam de benefícios fiscais, cambiais, administrativos e regulatórios, com a obrigação de destinarem pelo menos 80% de sua produção ao mercado externo.
A ZPE do Piauí tem potencial para atrair investimentos em indústrias de processamento e beneficiamento de produtos primários, como esmagamento de soja (produção de farelo e óleo), processamento de frutas (polpas, sucos concentrados, liofilizados), beneficiamento de algodão (tecelagem e confecção), processamento de gesso (drywall, pré-moldados), beneficiamento de carnaúba (ceras refinadas e derivados) e produção de biocombustíveis (biodiesel, etanol de milho).
A implantação da ZPE de Luís Correia enfrenta desafios burocráticos e de infraestrutura, mas o governo do estado e a iniciativa privada estão empenhados em viabilizar o projeto, que pode gerar milhares de empregos diretos e indiretos e transformar o perfil econômico do litoral piauiense.
Agregação de Valor à Produção Primária
Um dos maiores desafios do Piauí no comércio exterior é a elevada concentração das exportações em produtos primários de baixo valor agregado. A soja, o milho, o algodão e a cera de carnaúba são exportados majoritariamente na forma bruta ou semiprocessada, o que limita a geração de emprego, renda e valor agregado no estado.
Para superar essa limitação, o Piauí precisa investir em industrialização e verticalização das cadeias produtivas, transformando a produção primária em produtos de maior valor agregado antes da exportação. As oportunidades incluem:
Complexo Soja-Biodiesel: Produção de biodiesel a partir do óleo de soja, com geração de glicerina como coproduto, e produção de farelo de soja de alta proteína para alimentação animal.
Complexo Algodão-Têxtil: Implantação de tecelagens, malharias e confecções para transformar a pluma de algodão em tecidos, peças de vestuário e artigos de cama, mesa e banho de alto valor agregado.
Complexo Fruticultura-Sucos: Produção de sucos concentrados, polpas congeladas, frutas desidratadas e liofilizadas, óleos essenciais e extratos de frutas tropicais para o mercado internacional.
Complexo Carnaúba-Ceras Refinadas: Produção de ceras refinadas, microencapsuladas e derivados para aplicações técnicas em cosméticos, alimentos, farmacêuticos e eletrônicos.
Complexo Gesso-Drywall: Fabricação de chapas de gesso acartonado (drywall), pré-moldados, blocos e painéis para construção civil, com maior valor agregado que o gesso em pó.
Complexo Energia-Hidrogênio Verde: Produção de hidrogênio verde a partir de energia eólica e solar, com certificação de origem renovável, para exportação para Europa e Ásia.
Desafios e Perspectivas
O Piauí possui potencial para se tornar um dos estados mais dinâmicos do Brasil em comércio exterior, mas precisa superar desafios estruturais significativos. A infraestrutura logística (portos, ferrovias, rodovias) é o principal gargalo, seguida pela necessidade de investimentos em educação, ciência e tecnologia, pela burocracia e complexidade tributária, e pela necessidade de articulação entre setor público e iniciativa privada.
A conclusão da Ferrovia Transnordestina, a dragagem e modernização do Porto de Luís Correia, a implantação da ZPE e os investimentos em energia renovável são projetos que podem transformar o perfil econômico do estado e alavancar o comércio exterior piauiense para um novo patamar.
O governo do estado, em parceria com a iniciativa privada e instituições de pesquisa, tem implementado políticas de incentivo ao agronegócio, à fruticultura irrigada, à energia renovável e à industrialização. Os resultados já começam a aparecer, com o crescimento acelerado das exportações, a atração de investimentos e a diversificação da pauta exportadora.
Conclusão
O Piauí vive um momento histórico de transformação econômica. O MATOPIBA consolidou o estado como uma nova fronteira agrícola, com produção crescente de soja, milho e algodão. A cera de carnaúba mantém a liderança mundial, enquanto a fruticultura irrigada e a energia eólica abrem novas frentes de desenvolvimento.
Os desafios são grandes, mas as oportunidades são maiores ainda. O Porto de Luís Correia, a Ferrovia Transnordestina, a ZPE e o potencial para hidrogênio verde representam projetos estruturantes que podem mudar a trajetória de desenvolvimento do Piauí e inseri-lo de forma competitiva no comércio exterior global.
Para que esse potencial se realize, é fundamental que o estado supere os gargalos logísticos, invista em industrialização e agregação de valor, modernize o ambiente de negócios e fortaleça a parceria com o setor privado. Com planejamento estratégico, investimentos consistentes e execução disciplinada, o Piauí tem tudo para se consolidar como um dos estados mais promissores do Brasil no comércio exterior.
A TRADEXA, com sua expertise em inteligência de mercado, assessoria aduaneira, negociação internacional e soluções logísticas, está preparada para apoiar empresas e produtores piauienses na jornada de internacionalização, ajudando a transformar o enorme potencial do estado em negócios concretos, sustentáveis e competitivos globalmente.
O futuro do comércio exterior do Piauí é promissor. Com determinação, visão estratégica e parcerias sólidas, o estado pode se consolidar como um polo de excelência em agronegócio, energia renovável, mineração e industrialização, gerando desenvolvimento, emprego e renda para sua população e contribuindo para o crescimento do Brasil como um todo.