A Presença Feminina no Comércio Exterior Brasileiro: U...

O comércio exterior brasileiro, historicamente dominado por homens, vem passando por uma transformação silenciosa, porém consistente. Cada vez mais.

Publicado em 2026-06-24 | Atualizado em 2026-06-24 | TRADEXA Blog

A Presença Feminina no Comércio Exterior Brasileiro: Um Panorama Atual

O comércio exterior brasileiro, historicamente dominado por homens, vem passando por uma transformação silenciosa, porém consistente. Cada vez mais mulheres ocupam posições estratégicas em despachantes aduaneiros, tradings companies, armadores, corretoras de câmbio, órgãos públicos e associações setoriais. Dados recentes indicam que a participação feminina no setor já ultrapassa 40% da força de trabalho formal ligada ao comex, embora a presença em cargos de alta liderança ainda esteja aquém do desejável.

Segundo levantamento da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), o número de mulheres em cargos de gerência e diretoria em empresas do setor cresceu 35% entre 2018 e 2025. Esse avanço reflete não apenas mudanças culturais, mas também políticas corporativas mais conscientes sobre a importância da diversidade para a inovação e a competitividade. Na TRADEXA, observamos diariamente como a pluralidade de perspectivas enriquece a tomada de decisões em operações de comércio internacional.

O perfil dessas profissionais também se diversificou. Se antes a atuação feminina se concentrava em áreas administrativas e de compliance, hoje encontramos mulheres liderando equipes de negociação internacional, gerenciando riscos cambiais, comandando operações logísticas portuárias e representando o Brasil em fóruns multilaterais de comércio. A formação acadêmica tem sido um diferencial — mais de 60% das profissionais de comex com cargo de liderança possuem pós-graduação, muitas delas com especializações em comércio internacional, logística e direito aduaneiro.

No entanto, os números também revelam desigualdades persistentes. A diferença salarial entre homens e mulheres no setor ainda gira em torno de 22%, segundo dados do CAGED ajustados para funções equivalentes. Esse gap é menor que a média nacional (que ultrapassa 30%), mas ainda inaceitável para um setor que se pretende moderno e globalizado. Além disso, mulheres negras enfrentam uma dupla barreira, com remuneração média 40% inferior à de homens brancos no mesmo nível hierárquico.

Barreiras Históricas e Desafios Estruturais

Para compreender o cenário atual, é preciso olhar para as barreiras históricas que moldaram o setor. O comércio exterior brasileiro nasceu atrelado à exportação de commodities e à burocracia alfandegária — ambientes tradicionalmente masculinos, onde predominavam relações comerciais construídas em clubes, feiras e rodadas de negociação predominantemente frequentadas por homens.

Durante décadas, a mulher no comex era vista como exceção. As pioneiras que ingressaram no setor nas décadas de 1970 e 1980 relatam episódios frequentes de descrédito — clientes que pediam para "falar com o gerente", colegas que explicavam conceitos básicos de forma paternalista e a exclusão de rodas de negociação informais que aconteciam em Happy Hours ou jantares de negócios. Esse viés de gênero criou um ambiente que exigia das mulheres um desempenho acima da média para obter o mesmo reconhecimento.

A dupla jornada continua sendo um dos maiores desafios estruturais. A pesquisa "Mulheres no Comex 2025", realizada pelo COMEX Mulher em parceria com a FGV, apontou que 73% das profissionais do setor com filhos declararam ter dificuldades para conciliar a carreira com a vida familiar. A ausência de políticas robustas de licença-parental igualitária, horários flexíveis e suporte para amamentação em ambientes portuários e aeroportuários agrava esse quadro.

O assédio moral e sexual também emerge como uma ferida aberta. A mesma pesquisa revelou que 38% das respondentes já sofreram algum tipo de assédio ao longo da carreira no comex. Os relatos incluem desde comentários inadequados em reuniões com clientes até situações graves em viagens a negócios e eventos do setor. Iniciativas como canais de denúncia anônimos e comitês de ética independentes ainda são incipientes na maioria das empresas.

Outro ponto crítico é a baixa representatividade feminina nos conselhos de administração e nas diretorias executivas das grandes empresas do setor. Um levantamento da WISTA Brasil (Women's International Shipping & Trading Association) mostrou que, entre as 50 maiores empresas de navegação e logística que operam no Brasil, apenas 12% dos assentos em conselhos são ocupados por mulheres. Nos sindicatos patronais e federações do comex, a presença feminina na mesa diretora não chega a 20%.

Mulheres em Liderança nos Diversos Elos do Comex

Apesar dos desafios, o protagonismo feminino vem crescendo em todos os elos da cadeia de comércio exterior. Conhecer essas trajetórias ajuda a inspirar novas gerações e a mostrar que o espaço da mulher no comex é, acima de tudo, um espaço de competência e inovação.

Despachantes Aduaneiros e Agentes de Carga

Historicamente, o despacho aduaneiro era uma atividade quase exclusivamente masculina, exercida por profissionais que começavam como ajudantes nos terminais portuários e aeroportuários. Nos últimos dez anos, houve uma feminização significativa da profissão. Hoje, mulheres representam cerca de 45% dos profissionais registrados nos sindicatos de despachantes aduaneiros das praças de Santos, Rio de Janeiro e Paranaguá. Muitas delas comandam seus próprios escritórios ou ocupam a gerência de compliance aduaneiro em grandes corporações.

Trading Companies e Comércio Internacional

Nas tradings, a presença feminina é particularmente forte nas áreas de inteligência de mercado, negociação internacional e gestão de contratos. Empresas como a TRADEXA têm investido em programas de mentoria e desenvolvimento de liderança feminina, reconhecendo que a sensibilidade analítica e a capacidade de construir relacionamentos de confiança — características frequentemente associadas à liderança feminina — são diferenciais competitivos em negociações cross-culturais.

Mulheres à frente de mesas de câmbio e tesouraria também se destacam. A gestão de riscos cambiais, área crítica para qualquer operação de comex, exige disciplina, visão sistêmica e capacidade de tomar decisões sob pressão — habilidades que as profissionais brasileiras vêm demonstrando com excelência.

Navegação, Logística e Portos

O setor de navegação e portos é tradicionalmente o mais desafiador para a inserção feminina. A imagem do "homem do mar" ainda permeia o imaginário do setor. No entanto, dados da ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) mostram que a participação feminina em cargos de liderança em terminais portuários e empresas de navegação subiu de 8% em 2015 para 18% em 2025.

Mulheres comandantes, imediatas e oficiais de náutica já são realidade na marinha mercante brasileira, embora ainda representem menos de 5% do total. Em terra, a realidade é mais promissora: diretoras de terminais, gerentes de operações portuárias e coordenadoras de logística internacional são figuras cada vez mais comuns nos portos de Santos, Paranaguá, Itajaí e Suape.

Câmbio e Mercado Financeiro

O mercado de câmbio, intimamente ligado ao comex, também vê uma participação feminina crescente. As mulheres já representam 35% dos profissionais certificados pela Ancord (Associação Nacional das Corretoras de Valores) na área de câmbio. Em algumas das principais corretoras do país, as mesas de câmbio são lideradas por mulheres que construíram carreira sólida em tesouraria de bancos e corretoras.

Órgãos Públicos e Entidades de Classe

No setor público, a presença feminina em cargos de comando ligados ao comex também avança. A Receita Federal do Brasil, por exemplo, tem aumentado a participação de mulheres auditoras-fiscais em posições de chefia nas alfândegas. A SECEX (Secretaria de Comércio Exterior) e o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) também contam com mulheres em posições estratégicas de formulação de políticas de comércio internacional.

Iniciativas e Redes de Apoio: O Papel dos Coletivos

O fortalecimento da mulher no comex não teria acontecido sem a atuação de redes de apoio, associações e iniciativas dedicadas a promover a equidade de gênero no setor. Conhecer essas organizações é fundamental para quem deseja se engajar na pauta.

COMEX Mulher

Criado em 2018, o COMEX Mulher é um dos movimentos mais ativos na promoção do protagonismo feminino no comércio exterior brasileiro. Com núcleos regionais em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a iniciativa promove eventos, mentorias, pesquisas e ações de advocacy por políticas de equidade.

O COMEX Mulher também mantém um banco de talentos femininos, conectando profissionais a oportunidades de trabalho e consultoria. Anualmente, realiza o Fórum Nacional da Mulher no Comex, que reúne centenas de profissionais para debates sobre carreira, liderança, inovação e desafios do setor.

WISTA Brasil

A WISTA Brasil é o braço nacional da Women's International Shipping & Trading Association, organização global fundada em 1974 que promove a participação feminina na indústria marítima, trading e logística. No Brasil, a WISTA tem núcleos em Santos, Rio de Janeiro, Paranaguá e Manaus, promovendo networking, programas de mentoria e certificações profissionais.

A WISTA também atua fortemente na pauta da diversidade nas operações portuárias, realizando treinamentos sobre vieses inconscientes e boas práticas de inclusão para terminais e armadores. A entidade tem diálogo constante com a ANTAQ e o Ministério de Portos e Aeroportos para inclusão de cláusulas de equidade de gênero nos contratos de concessão portuária.

AEB Mulher

A AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil) criou em 2020 o programa AEB Mulher, com o objetivo de ampliar a participação feminina no comex por meio de capacitação, pesquisa e advocacy. O programa realiza cursos gratuitos de comércio exterior voltados para mulheres em situação de vulnerabilidade social, além de produzir dados e relatórios sobre a situação da mulher no setor.

Outras Iniciativas Relevantes

Além dessas, merecem destaque o Elas no Comex (movimento que conecta mulheres empreendedoras que atuam com exportação), o grupo de afinidade de mulheres do SINDARMA (Sindicato Nacional dos Despachantes Aduaneiros) e diversas comissões de gênero criadas dentro de federações de comércio exterior estaduais. A TRADEXA, alinhada a esse movimento, apoia e participa ativamente de eventos dessas entidades, reforçando seu compromisso com a diversidade e a inclusão no setor.

Mentorias, Networking e Desenvolvimento de Carreira

Um dos fatores mais apontados como catalisadores da ascensão feminina no comex é a mentoria. Programas estruturados de mentoria — como os oferecidos pela WISTA, pelo COMEX Mulher e por empresas como a TRADEXA — têm demonstrado impacto direto na retenção e promoção de talentos femininos.

A mentoria funciona em dois sentidos: a mentora compartilha experiência prática, navegação política e redes de contato; a mentee traz novas perspectivas, energia e, muitas vezes, domínio de tecnologias e ferramentas digitais que transformam processos tradicionais. Essa troca geracional tem sido especialmente frutífera no comex, onde a digitalização de processos aduaneiros e a automação de compliance estão mudando rapidamente o perfil das competências demandadas.

O networking, por sua vez, continua sendo um dos maiores desafios. As mulheres ainda encontram mais dificuldade para acessar as redes informais de influência — os "corredores do poder" onde relacionamentos comerciais são construídos e negócios fechados. Iniciativas como rodadas de negócios exclusivas para mulheres, grupos no WhatsApp e clubes de liderança feminina têm ajudado a preencher essa lacuna.

Eventos como o Congresso da Mulher no Comex, o Encontro Nacional de Mulheres do Agronegócio (que também aborda pautas de exportação) e os cafés de networking promovidos pelas associações regionais são oportunidades valiosas para ampliar o círculo de contatos e encontrar mentoras e sponsors.

Outra frente importante é o desenvolvimento de habilidades de negociação e liderança. Cursos de oratória, negociação internacional, gestão de conflitos e liderança situacional são cada vez mais procurados por mulheres que buscam acelerar a carreira no comex. Empresas com políticas ativas de desenvolvimento feminino têm investido em bolsas de estudo e subsídios para esses programas.

Políticas Corporativas e Equidade de Gênero

A promoção da equidade de gênero no comex não pode depender apenas de iniciativas individuais ou de movimentos voluntários. É preciso que as empresas adotem políticas corporativas estruturadas que ataquem as causas estruturais da desigualdade.

Políticas de Recrutamento e Seleção

Empresas comprometidas com a equidade têm revisado seus processos seletivos para eliminar vieses inconscientes. Isso inclui a utilização de currículos cegos (sem foto, nome ou gênero), painéis de entrevista diversos, metas de curto-list com pelo menos 50% de mulheres e linguagem inclusiva nas descrições de vagas.

Transparência Salarial e Planos de Carreira

A Lei da Transparência Salarial (Lei 14.611/2023) deu um passo importante ao obrigar empresas com mais de 100 funcionários a publicar relatórios de transparência salarial. No setor de comex, onde a diferença salarial de gênero ainda é significativa, a aplicação rigorosa dessa lei pode acelerar a correção das distorções. Além disso, planos de carreira claros com critérios objetivos de promoção ajudam a reduzir o viés de gênero nas decisões de ascensão.

Flexibilidade e Apoio à Parentalidade

Políticas de trabalho flexível, home office parcial, licença-parental igualitária (tanto para mães quanto para pais) e salas de apoio à amamentação nos escritórios e terminais são medidas concretas que fazem diferença na retenção de talentos femininos. Empresas que adotaram essas políticas relatam redução significativa no turnover de profissionais mulheres.

Canais de Denúncia e Combate ao Assédio

A implementação de canais de denúncia independentes, com garantia de anonimato e proteção ao denunciante, é fundamental para criar um ambiente seguro. Treinamentos periódicos sobre assédio moral e sexual, código de conduta e diversidade devem ser obrigatórios para todos os colaboradores, especialmente para lideranças.

Na TRADEXA, acreditamos que a equidade de gênero não é apenas uma pauta de justiça social, mas também um imperativo de negócios. Empresas diversas tomam decisões melhores, inovam mais e constroem equipes mais resilientes. Por isso, investimos continuamente em políticas que promovam um ambiente inclusivo e livre de discriminação.

Oportunidades e Caminhos para o Futuro

Apesar dos desafios, o horizonte para as mulheres no comex brasileiro é promissor. Diversas tendências abrem novas oportunidades que podem acelerar a equidade de gênero no setor.

Digitalização e Novas Competências

A transformação digital do comex — com a disseminação do Portal Único de Comércio Exterior, a automação de processos aduaneiros com inteligência artificial, o uso de blockchain para rastreabilidade de cargas e a expansão do e-commerce internacional — está democratizando o acesso à informação e reduzindo a dependência de redes informais de influência. Profissionais capacitados em tecnologia, análise de dados e gestão digital têm vantagem competitiva, independentemente de gênero.

Expansão do Comércio Internacional Brasileiro

O crescimento das exportações brasileiras, impulsionado pela recuperação da economia global, pela abertura de novos mercados e pela diversificação da pauta exportadora, cria demanda por profissionais qualificados em comércio exterior. Setores como agronegócio, mineração, energia, tecnologia e economia criativa estão ampliando suas equipes de comex, gerando novas oportunidades de entrada e ascensão para mulheres.

Crédito e Financiamento para Liderança Feminina

Linhas de crédito específicas para empresas lideradas por mulheres, como as oferecidas pelo BNDES, pelo Banco do Brasil e por instituições internacionais como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), estão facilitando o acesso de empreendedoras ao mercado internacional. Programas como o "Mulheres Exportadoras" do BNDES e o "Women in Trade" do Banco Mundial oferecem não apenas financiamento, mas também capacitação e conexão com redes globais.

Educação e Formação Continuada

A oferta de cursos de comércio exterior em formato EAD, muitos deles gratuitos ou a preços acessíveis, tem ampliado o acesso à qualificação profissional. Instituições como a FUNCEX, a AEB e diversas universidades federais oferecem programas de extensão e especialização em comex. A TRADEXA, por meio de seu hub de conhecimento, contribui com conteúdos técnicos e análises de mercado que ajudam profissionais a se manterem atualizadas.

Representatividade Importa

Quanto mais mulheres ocupam posições de destaque no comex, mais natural se torna a presença feminina no setor. Cada nova diretora, gerente ou empreendedora que alcança o topo abre caminho para as que vêm atrás. A visibilidade dessas trajetórias é fundamental para desconstruir estereótipos e mostrar às jovens que o comércio exterior é um campo fértil para o desenvolvimento profissional feminino.

O caminho da equidade no comex brasileiro ainda é longo, mas a direção é clara. Com políticas corporativas consistentes, redes de apoio fortalecidas, investimento em educação e, acima de tudo, coragem para enfrentar as barreiras ainda existentes, as mulheres estão não apenas conquistando seu espaço — estão transformando o setor para melhor. E a TRADEXA segue comprometida em fazer parte dessa transformação.